sexta-feira, 2 de abril de 2010

Questão XXIV - Do Livro da vida

QUESTÃO XXIV — DO LIVRO DA VIDA


Devemos em seguida tratar do livro da vida. E sobre este assunto discutem-se três artigos:
  1. Que é o livro da vida;
  2. De que vida é o livro;
  3. Se alguém pode ser riscado do livro da vida.

ART. I. — SE O LIVRO DA VIDA É O MESMO QUE A PREDESTINAÇÃO


(I Sent., dist. XL, q. 1, a. 2, ad 5; III, dist. XXXI, q. 1, a. 2, q. 2; De Verit., q. 7, a. 1, 4; ad Philipp., cap. IV, lect. I; ad Hebr., cap. XII; lect. IV)

O primeiro discute-se assim. — Parece que o livro da vida não é o mesmo que a predestinação.

1. — Pois, diz a Escritura (Eclo 24, 32): Tudo isto é o livro da vida; e a Glosa: Isto é, o Novo e o Velho Testamento. Ora, isto não é a predestinação. Logo, o livro da vida não é o mesmo que a predestinação.

2. Demais. — Agostinho diz que o livro da vida é uma certa virtude divina, por força da qual cada um conserva na memória as suas boas ou más obras. Ora, a virtude divina não pertence à predestinação, mas, antes, ao atributo do poder. Logo, o livro da vida não é o mesmo que a predestinação.

3. Demais. — A predestinação se opõe a reprovação. Por onde, se o livro da vida fosse a predestinação, também haveria um livro da morte.

Mas, em contrário, àquilo da Escritura (Sl 68, 29): sejam riscados do livro dos viventes — diz a Glosa: Este livro é o conhecimento de Deus, pelo qual predestinou à vida os que previu.

SOLUÇÃO. — Em relação a Deus falamos metaforicamente de livro da vida, por semelhança com as coisas humanas. Pois é costume dos homens inscrever num livro os eleitos a algum cargo, como os soldados, os conselheiros, que antigamente se chamavam Padres Conscritos. Ora, é claro, pelo que já dissemos (q. 23, a. 4), que todos os predestinados são eleitos por Deus à vida eterna. Por onde, a inscrição dos predestinados se chama livro da vida. Dizemos, porém, metaforicamente, que está inscrito no intelecto o que alguém conserva com segurança na memória, conforme a Escritura (Pr 3, 1): Não te esqueças da minha lei e guarde o teu coração os meus preceitos; e logo em seguida: Grava-as sobre as tábuas do teu coração. Pois inscrevemos nos livros materiais para socorrer a memória. Por isso, chamamos livro da vida à ciência mesma de Deus, pela qual se lembra com segurança dos predestinados à vida eterna.

Pois, assim como a escritura de um livro indica as coisas que devemos fazer, assim a ciência de Deus lhe significa os que devem ser levados à vida eterna, segundo aquilo da Escritura (2 Ti 2, 19): Porém, o fundamento de Deus está firme, o qual tem este selo: o Senhor conhece os que são dele.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — De dois modos podemos conceber o livro da vida. De um, significa a inscrição dos eleitos à vida; e é nesse sentido que agora tratamos de tal livro. De outro modo, significa as coisas que levam à vida. E isto de duas maneiras. Ou das coisas a serem feitas, e, assim, o Novo e o Velho Testamento se chamam livro da vida. Ou das já feitas, e assim livro da vida se chama aquela virtude divina pela qual cada um conserva na memória os próprios feitos. Como também livro da milícia pode chamar-se o livro onde se inscrevem os escolhidos para a milícia; ou onde se ensina a arte militar, ou onde se narram feitos militares. Donde se deduz clara a RESPOSTA À SEGUNDA objeção.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Não se costumam inscrever os rejeitados, mas os escolhidos. Por isso, não corresponde à reprovação um livro da morte, como à predestinação, o da vida.

RESPOSTA À QUARTA. — Racionalmente, difere da predestinação o livro da vida; pois, implica o conhecimento daquela, como resulta da Glosa citada.

ART. II. — SE O LIVRO DA VIDA SÓ CONCERNE À VIDA GLORIOSA DOS PREDESTINADOS


(III Sent., dist. XXXI, q. 1, a. 2, qª 2; De Verit., q. 7, a. 5, 6, 7)

O segundo discute-se assim. — Parece que o livro da vida não concerne somente à vida gloriosa dos predestinados.

1. — Pois, o livro da vida é o conhecimento desta. Ora, Deus conhece pela sua, todas as outras vidas. Logo, o livro da vida concerne precipuamente à vida divina e não só à dos predestinados.

2. Demais. — Assim como a da glória, também a vida da natureza vem de Deus. Se, pois, o conhecimento daquela se chama livro da vida, também o desta há de assim chamar-se.

3. Demais. — Alguns são eleitos para a graça, que não o são para a vida da glória, como está claro na Escritura (Jo 6, 71): Não é assim que eu vos escolhi em número de doze? E contudo um de vós é o diabo. Ora, o livro da vida é a inscrição da eleição divina, como foi dito (a. 1). Logo, também concerne à vida da graça.

Mas, em contrário, o livro da vida é o conhecimento da predestinação, como se disse (a. 1). Ora, a predestinação só concerne à vida da graça, enquanto ordenada para a glória; pois não são predestinados os que, tendo a graça, ficam privados da glória. Logo, o livro da vida não concerne senão à glória.

SOLUÇÃO. — Como dissemos (a. 1), o livro da vida supõe a inscrição ou conhecimento dos eleitos à vida. Ora, alguém só é eleito para o que não lhe cabe por natureza. E além disso, aquilo para o que alguém é eleito desempenha o papel de causa final. Assim o soldado não é escolhido ou inscrito para que se arme, mas para lutar, que é o fim próprio da milícia. Ora, o fim sobrenatural é a vida da glória, como dissemos (q. 12, a. 4; q. 23, a. 1). Logo, propriamente, é a esta que o livro da vida concerne.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A vida divina, mesmo como gloriosa, é natural a Deus. Por onde, em relação a ela não há eleição nem por conseqüência livro da vida. Pois, não dizemos que um homem é eleito para ter sentidos, ou para qualquer atributo resultante da natureza. Donde se deduz clara a RESPOSTA À SEGUNDA objeção. — Em relação à vida natural, não há eleição nem livro da vida.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A vida da graça não tem natureza de fim, mas de meio. Por onde, não dizemos de ninguém, que para ela seja eleito, senão enquanto ordenada para a glória. E por isso não se consideram eleitos, absolutamente falando, mas sim, relativamente, os que, tendo a graça, não alcançam a glória. Semelhantemente, só relativa, e não absolutamente, é que se consideram inscritos no livro da vida. Enquanto deles está determinado, na ordenação e na ciência divina, que hão de alcançar uma certa ordem para a vida eterna, conforme a participação da graça.

ART. III. — SE ALGUÉM É RISCADO DO LIVRO DA VIDA


(I Sent., dist. XL, q. 1. a. 2, ad 5; q. 3, ad 3; III, dist. XXXI, q. 1, a. 2, qª 2; Ad Phílipp., cap. IV. lect. 1)

O terceiro discute-se assim. — Parece que ninguém é riscado do livro da vida.

1. — Pois, diz Agostinho: O livro da vida é a presciência de Deus, que não pode enganar-se. Ora, ninguém pode escapar à presciência de Deus, nem à predestinação. Logo, ninguém, pode ser riscado do livro da vida.

2. Demais. — Tudo o que existe num sujeito, existe ao modo deste. Ora, o livro da vida é algo de eterno e imutável. Logo, tudo o que nele existe há de existir, não temporal, mas imóvel e indelevelmente.

3. Demais. — Ser riscado opõe-se a ser inscrito. Ora, ninguém pode ser de novo inscrito no livro da vida. Logo, nem do mesmo, riscado. Mas, em contrário, a Escritura (Sl 68, 29): Sejam riscados do livro dos viventes.

SOLUÇÃO. — No pensar de alguns, ninguém pode ser verdadeiramente riscado do livro da vida, mas somente, na opinião dos homens. Pois, é habitual a Escritura dizer, que uma coisa é feita quando é conhecida. E assim são considerados inscritos no livro da vida os de que os homens assim opinam, por causa da justiça presente, que neles descobrem. Mas então dele consideram-se riscados quando se sabe que, neste ou no futuro século, decaíram dessa justiça. E a Glosa também assim explica o sentido do salmo: — Sejam riscados do livro dos viventes.

Mas, entre os prêmios dos justos, está não serem riscados do livro da vida, segundo àquilo da Escritura (Ap 3, 5): Aquele que vencer será assim vestido de vestiduras brancas e eu não apagarei o seu nome do livro da vida. Ora, o prometido aos santos não o é só na opinião dos homens. Por onde, podemos dizer que não só à essa opinião, mas ainda à realidade se refere o ser ou não riscado do livro da vida. Pois, esse livro é a inscrição dos que são ordenados à vida eterna, à qual alguém é ordenado por duas causas: por predestinação divina, que nunca falha, e pela graça. Pois quem tem a graça por isso mesmo é digno da vida eterna; todavia esta ordenação, às vezes, falha, porque alguns eram ordenados, pela graça recebida, a alcançar a vida eterna, e, contudo, a perderam, pelo pecado mortal.

Por onde, os ordenados pela predestinação divina a alcançar a vida eterna estão, absolutamente falando, inscritos no livro da vida; porque nele estão inscritos como havendo de alcançá-la, em si mesma; e esses não serão nunca dele riscados. Dizemos, porém, que estão inscritos no livro da vida, não absoluta, mas relativamente, os ordenados a alcançar a vida eterna, não por predestinação divina, mas só pela graça. Porque nele estão inscritos como havendo de alcançar a vida eterna em sua causa e não, em si mesma. E esses podem ser dele riscados, sem que isto se refira ao conhecimento de Deus, que ignoraria o que previu, mas à coisa conhecida, sabendo então Deus que, embora anteriormente ordenado à vida eterna, o que perdeu a graça já não o é.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Ser riscado não se refere, como dissemos, ao livro da vida, relativamente à presciência, como se em Deus houvesse mudança; mas, relativamente às coisas previstas, que são mutáveis.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Embora as coisas sejam, em Deus, imutáveis, contudo em si mesmas, são mutáveis. E a esta situação é que se refere o ser riscado do livro da vida.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Do modo por que dizemos que alguém é riscado do livro da vida, podemos também dizer que é nele inscrito de novo. Quer quanto à opinião dos homens, ou porque de novo começa, pela graça, a ordenar-se para a vida eterna. O que também está compreendido no conhecimento divino, embora não de novo.

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